"O teatro é uma arma e é o povo que deve manejá-la."
Augusto Boal

A naúsea é resultado de excessos...

A naúsea é resultado de excessos...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A essência do teatro Henri Gouhier


Representar é tornar presente através de presenças.

O "fato dramático" é portanto o ator. Não há teatro sem poeta, mas há poesia sem teatro: a arte do ator e o texto teatral vem um para o outro e um do outro. O autor está em tudo aquilo onde criar não é representar: somente o ator está sobre a cena, e ele não pode estar em nenhum outro lugar.

Com o ator, o mistério do teatro é o da presença real, antes mesmo de ser o da metamorfose. Mistério profano do qual uma experiência cotidiana revela-nos os efeitos, pois ela justifica a superioridade ou a inferioridade, segundo os casos, da conversação sobre a correspondência, da questão oral sobre o exame escrito.

Estou diante de um homem. Afirmo que ele é alto, magro e moreno; mas eu quase não intervenho para afirmar que ele está lá: sua presença afirma-se em mim. Eu o conheço como alto, magro e moreno; eu o conheço também como existente e presente: mas os dois conhecimentos são bem diferentes. O primeiro é um saber detalhado e progressivo; descubro pouco a pouco o que é esse homem, e depois quem é esse homem. O segundo é uno e instantâneo: esse homem está lá, nada mais, nada menos. Eu posso consignar um saber: descrevo o homem que está diante de mim; posso transmitir meu saber: as memórias estão cheias de "retratos". Esse homem está lá: que mais dizer? Sua presença será simplesmente o objeto de uma informação.

O pensamento não passa de um conhecimento de um outro por graus, mas por uma inversão é preciso voltar-se para o concreto cru. A inteligência abstrai do real suas qualidades, que ela restituir-lhe-á sob a forma de atributos no julgamento. Quando ela o tenha esvaziado de todas as suas qualidades, ela não poderia separar a existência do existente: a abstração não pode mais abocanhar. (5) A existência não pode ser atributo, pois ela é o lugar dos atributos; ela não pode ser uma propriedade, pois ela é o proprietário: resta apenas sofrer sua presença.

Tal conhecimento não é uma sensação, pois ele não é especificamente nem visual, nem tátil, nem auditivo: ele não é próprio de nenhum sentido, embora cada percepção lhe deva sua consistência. Ele também não é um sentimento, se com essa palavra designamos uma afeição do sujeito que se sente feliz, descontente ou triste. "Intuição" também não convém (6): uma intuição que não se refere ao eu do sujeito visa um objeto; ora, a existência não é jamais um objeto; ela é aquilo que há de objetivo no objeto: uma espessura sem contornos, uma opacidade sem formas, uma música sem linhas, são abstrações desesperadas para designar aquilo que o objeto não deixará jamais que se colha nele. O melhor termo é sem dúvida o que propôs um dia M. Gabriel Marcel: a realidade nos é dada em uma certeza (7), certeza contínua e potente como o baixo que sustenta um canto, certeza que me permite avançar sem medo de cair no vazio.

O dado imediato da presença é também um dom. Uma vez que ele está lá, eu sei que desse homem aquilo que nenhum documento, nenhuma descrição e nenhuma fotografia me dirá. Um conhecimento à distância freqüentemente é mais completo e mais exato; o biógrafo às vezes compreende seu herói melhor do que o fizeram os mais sutis de seus contemporâneos. Mas o recuo aproveita ao saber e, ainda uma vez, da presença não emana nenhum saber: ela cria antes uma espécie de cumplicidade propícia aos olhares indiscretos. Esse homem está em meu universo; eu estou no seu: a vida obriga-me a simplificar e eu concluo logo que nós estamos no mesmo; ei-nos aqui, por um instante, juntos no mesmo barco e é preciso que façamos um acordo entre nossas prudências. Ora, essa familiaridade gera uma sagacidade mais viva e mais perspicaz que a reflexão, senão mais justa, sagacidade que dispensa de terminar as frases, que permite comunicar sem palavras, que lê nos olhos e corrige as mentiras da boca através do imperceptível tremor de uma mão.

Graça da presença... Graça da adivinhação e não graça da luz, socorro do diretor de consciência, fina seta do diagnóstico médico, força dos verdadeiros chefes. Captá-la, este é o milagre do retrato; atualizá-la, este é o segredo do conferencista; colocá-la como princípio de uma arte, esta é a essência do teatro.

Em Busca de Seu Próprio Clown - Jacques Lecoq

Na tradição do circo, o clown começava sendo um acrobata, malabarista ou trapezista, e depois, com o passar do tempo, não podendo mais realizar os números no mesmo nível de qualidade, ensinava-os a um jovem e tornava-se um clown.

Desde os anos sessenta manifesta-se um interesse pelo clown. Mas o clown não está mais ligado ao circo: trocou o picadeiro pela cena e pela rua. Muitos jovens desejam ser clowns; é uma profissão de fé, uma tomada de posição perante a sociedade: ser esse personagem à parte e reconhecido por todos, pelo qual sentimos um vivo interesse, naquilo que ele não sabe fazer, lá onde ele é fraco. Mostrar suas fraquezas (as pernas finas, o peito largo, os braços pequenos) e enfatizá-las usando roupas diferentes daquelas que usualmente as ocultam, é aceitar-se e mostrar-se tal como se é.

Numerosos jovens em todos os países andam pelas ruas com três bolinhas, uma cambalhota, uma parede invisível, querendo ser vistos. O fenômeno ultrapassa a simples representação e seu espetáculo. Esse clown "psicológico", que pode desenvolver uma pedagogia dramática, necessária à liberdade do comediante, não é forçosamente um clown de espetáculo e permanece no mais das vezes sendo um modo de expressão privado. O pequeno nariz vermelho não basta para fazer um clown profissional e a representação não deve ser uma exibição consoladora.

O clown exige também uma proeza, freqüentemente ao inverso da lógica; ele põe em desordem uma certa ordem e permite assim denunciar a ordem vigente: deixa cair o chapéu, vai apanhá-lo mas, desajeitadamente, dá-lhe um pontapé e, sem querer, pisa na bengala que lhe joga de volta o chapéu nas mãos. O clown erra onde não esperamos e acerta onde não esperamos. Se tentar um salto perigoso, cai, mas o executa quando lhe dão uma bofetada. Assim o clown Grock, escondido atrás de um biombo, conseguia junglar com três bolas, só elas visíveis ao público, o que não conseguia fazer perante o público.

O clown toma tudo ao pé da letra, em seu sentido imediato: quando a noite cai (bum!) ele a procura no chão e nós rimos de seu lado idiota e ingênuo. Se alguém lhe manda tomar um ar ele quer segurá-lo com a mão. Todos pregam-lhe peças. Alguém o manda abaixar-se e olhar para os pés: ele se abaixa e leva um pontapé nos fundilhos; achando a piada "muito boa", vai passá-la a um terceiro personagem; este lhe pede para mostrar como fazê-lo e o clown recebe um novo pontapé deste novo personagem, que já conhecia a blague.

O pequeno nariz vermelho, "a menor máscara do mundo", dando ao nariz uma forma redonda, banha os olhos de ingenuidade e aumenta o rosto, desarmando-o de qualquer defesa. Ele não causa medo, o que faz com que seja amado por todas as crianças.

A pantomima, outrora, desceu ao picadeiro do circo e deu ao clown o rosto branco de Pierrot, que torna-se então o clown branco. O clown, hoje, é sobretudo o augusto e, portanto, todos os cômicos do picadeiro.

Beckett deu uma nova dimensão ao clown, fazendo com que ele descobrisse os altos sopros da existência. O herói trágico tornou-se inabordável, e o clown o substitui, "Esperando Godot"...

Clowns de teatro e clowns de circo misturam-se no Circo Alfred, na Tchecoslováquia, com Ctibor Turba e Boleslav Polivka. Pierre Byland e Philippe Gaulier, clowns de teatro absurdo, fazem um espetáculo, Os Pratos. Cada país encontra seus clowns, o fenômeno é internacional, e não é o circo que os faz nascer. Os jovens comediantes se reconhecem nesse mundo clownesco que desenvolvem longe da imagem típica do clown de circo.

Essa busca de seu próprio clown reside na liberdade de poder ser o que se é e de fazer os outros rirem disso, de aceitar a sua verdade. Existe em nós uma criança que cresceu e que a sociedade não permite aparecer; a cena a permitirá melhor do que a vida.

Esse caminho é puramente pedagógico e essa experiência serve ao comediante para além mesmo da representação clownesca. Não basta, para um clown de teatro, apresentar-se ao público fracassando naquilo que procura realizar e com uma roupa típica e nariz vermelho. O clown profissional deve saber realizar seus fracassos com talento e trabalho. Os clowns de teatro fundamentam-se mais sobre o talento do comediante que sobre o do acrobata; sem o nariz vermelho, eles animam um mundo geralmente absurdo e trágico. Em companhias, montam peças curtas criando seus personagens a partir de si mesmos, caricaturando a si mesmos.

In "Le Théâtre du geste", org. de Jacques Lecoq, Ed. Bordas, Paris, 1987, pág. 117. Tradução de Roberto Mallet.

O mais nu dos artistas

Se não for engraçado, o clown não é um clown. Afora isto, ele tem todos os direitos, e também um dever: ser muito pessoal, com sua própria silhueta, seu estilo único, sua expressão particular. Quanto a mim, tento utilizar o máximo de meios: acrobacia, funambulismo, música, palavra... e mímica, é claro. Já fui criticado por isto, mas acredito que o clown tenha feito mímica bem antes dos mímicos. Essa mímica e quase todas as especialidades dos artistas do picadeiro, nós encontramos nos artistas da commedia dell'arte, mas a commedia, por mais engraçada que seja, não é clownesca. Um excêntrico como Georges Carl é hilariante, mas não é um clown. Há uns quinze anos, vi a peça de Marcel Achard "Voulez-vous jouer avec moá?"; os comediantes eram extraordinariamente cômicos, melhores que a maioria dos clowns, mas... não havia clowns, eram clowns representados por atores.

Tomemos um contra-exemplo: Charlie Rivel. Por natureza, ele é "o" clown, a quintessência do clown, em seu ser, sua maneira de viver, de se exprimir. Talvez ele não fosse um perfeito ator, no sentido clássico da palavra, mas tinha o estilo clown, como o tinha Grock, o maior de todos. Atualmente, ele movimenta-se com dificuldade; sua filha Paulina tem que maquiá-lo. Mas o pouco que se move, sua maneira de desenvolver as gags lentamente, de comportar-se como uma criança, engraçada, má, poética, esperta, terna..., é um clown!

Os Colombaioni abandonaram o circo. Eles tiveram o desembaraço de não se caracterizarem mais; depois de um minuto com eles em cena, você pensa: não são excêntricos, nem burlescos, nem comediantes que representam clowns, mas verdadeiros clowns.

É apenas com exemplos como esses que se pode tentar explicar, definir. Mas é extremamente difícil pois os clowns têm um segredo que somente eles conhecem! Ele caiu sobre os seus narizes, quando estavam no berço! Eles só têm mérito se exploram-no bem, se cultivam-no. Tenho tanto respeito por esse ofício que não suporto aqueles que imaginam que basta, para merecer o nome de clown, colocar um nariz vermelho e sapatos monstruosos. Tenho horror de certas trupes, algumas bem conceituadas, em que os atores caracterizam-se até o topo da cabeça, em que utilizam-se um monte de acessórios mecânicos complicados que não cabem em uma camionete. Grock contentava-se com um violino e uma cadeira, mas Grock era um ponto culminante de nossa arte.

Eu procuro, como ele, respirar, durante meu número, como na vida. Não se deve ter medo de perder seu tempo. O público está deformado, sobretudo por causa da televisão: ele quer ver tudo rápido, quer ter tudo rápido, a vida já digerida; e as crianças são como os adultos. Não devemos nos deixar enganar por essa onda. Quando se consegue impor seu próprio ritmo, quando se vence a partida, é maravilhoso porque as pessoas, então, dão-se conta de que se trata de outra coisa.

Um dos meus "truques" é sorrir freqüentemente porque eu gostaria de transmitir isso: quero tanto, aliás, que, afinal, não é um truque! Quando, em um país em que ninguém me conhece, num botequim, chego a fazer rir não importa quem, uma pessoa, uma só - ou uma criança - fico todo feliz: tenho a impressão que realmente fiz alguma coisa, que consegui construir uma ponte com os outros. Atrás de meu sorriso, há essa vontade. Há muita vontade - nunca o bastante - e uma grande concentração. Sobre este ponto, estou longe, ai!, de igualar um iogue ou um monge zen, mas sou bastante auxiliado pela crença que inculcou-me minha mãe em um mundo onde as forças espirituais são, com toda a naturalidade, as mais influentes.

Cada um tem sua pequena filosofia... A minha é não poder conceber meu trabalho senão como um clown honesto e verdadeiro: sua atitude e seu caráter transmitem-se através de sua arte, portanto é interessante tentar mostrar-se humano, gentil, com humor. Minha vida, meu ofício, tudo está no mesmo saco! Eu não represento um papel: estou nu; o clown é o mais nu de todos os artistas porque põe em jogo a si mesmo, sem poder trapacear. Para não decepcionar o público, ele tem o dever de ser autêntico, de ter a impressão de estar sempre oferecendo muito pouco. É meu ideal de clown. Um ideal que vocês podem notar em outras pessoas que têm ofícios bem obscuros: pessoas honestas, boas, trabalhadoras. Elas tentam cumprir sua tarefa humildemente: são personalidades tão grandes quanto os mais célebres artistas do mundo.

Além do mais, para mim - um pouco à maneira desse santo que dizia: "Ama a Deus e faze o que quiseres" - é isto: "Sê engraçado, e faze o que quiseres." Sê engraçado!!!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011


Temos a arte para não morrer da verdade.
Friedrich Nietzsche

Como é mesmo?

A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.
Friedrich Nietzsche

O que te faz feliz?


Nós humanos somos seres estranhos. Nunca estamos felizes com nada. Vivemos sempre buscando algo que não temos, e o que temos já não nos importa. Algo como: a felicidade está em um patamar acima do nosso e estamos sempre a buscá-la. Enfim, por mais que tenhamos bens, saúde, uma família, sempre falta algo. Que seja algo distante, que seja impossível, pois será isso que iremos desejar, ainda que o que precisamos, de fato, esteja ao alcance de nossas mãos.

Carros, casas, bens, dinheiro, dinheiro. Seria essa a definição ideal de felicidade? Não sei, a resposta não é tão simples. Talvez a felicidade não se resuma nessas coisas, em bens materias, embora estas coisas ajudem muito. Talvez, as coisas mais mais valiosas que temos, por mais démodé que seja, são amores. Não amores carnais apenas, paixões, mas sim amores, amores pelo simples viver, do amanhecer de um dia, de uma vida envolta de prazeres simplórios, e que não são necessariamente relacionados a dinheiro. Tá, reconheço que isso é filosófico demais, mas é realidade. Afinal, a vida deve ser encarada como um simplicidade impressionante, porque a vida é mesmo complexa. Mas é difícil ver simplicidade na vida, porque, aliás, a felicidade é, além de tudo, complexa.

Quando criança, eu queria ser adulto, mas por que cargas d’água hoje eu gostaria de ser criança? Por que sentimos falta daquilo que tivemos, e que sempre desejamos descartar?

Afinal, o que te faz feliz? O que nos faz feliz? O que é ser feliz? Talvez seja a esperança de saber que o amanhã poderá ser melhor, e é por isso que batalhamos hoje. É, talvez ser feliz seja isso: viver o que temos pra viver da maneira que podemos.

Aprender



Aprender te dá asas para voar e o voo é seguro...de antemão posso informar que nos maravilhamos com as novas descobertas e prazeres de se aprender.

Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.
Friedrich Nietzsche

Teatro é como ver um sonho alheio

Teatro é como ver um sonho alheio
as ações da vida real são imitadas no teatro através do ator, é ele que vai tornar o sonho real

Viva o teatro da mente!

Viva o teatro da mente!
Leia e viaje no universo da imaginação